A maioria das pessoas entende que a formação se reduz à simples aprendizagem e talvez à prática das boas maneiras.
Supõe-se haver uma boa formação quando se adquiriu uma sólida bagagem intelectual. Ou se cultiva um gosto requintado de impecável apresentação.
Ou se exibe um fluente vocabulário.
Ou ainda se apresenta um equilíbrio físico, próprio daqueles que se dedicam apaixonadamente a desportos ou práticas de cultura física.
Para a maioria, a formação resume-se à aquisição daqueles meios que ajudam a vencer na vida. O resultado importa mais do que o meio.
A formação estética, a formação intelectual, a preparação técnica e a cultura física são reais valores para o indivíduo e para a sociedade só quando tiverem uma sólida base de vontade forte e decidida.
A vontade, a despeito do muito que se possa dizer em contrário, é a grande faculdade humana. Sem ela, a inteligência fica diminuída, a sensibilidade confusa, as diversas maneiras de formação não passam de formalidades externas, que não valorizam a vida.
Sem o influxo da vontade, até mesmo a vida espartanamente religiosa não passa de vã mentira.
Todos sentimos a luta titânica que se trava dentro de nós.
Por vezes, as intenções são óptimas e decididos os propósitos. Mas a vontade é desoladoramente frouxa, e os propósitos são reduzidos a lúgubres ruínas, que atestam a nossa fraqueza e a nossa cobardia.
S. Paulo descreve dramaticamente, na Epístola aos Romanos, esta dualidade, por vezes dolorosa, que se passa dentro de nós. Antes dele já Platão comparara a alma humana a um carro puxado em direcções opostas, por dois cavalos fogosos. De um lado, a voz dos sentidos, com as miragens estonteantes da carne, com as tentações violentas “do mais fácil”.
Do outro, a voz que clama o que está correcto, porque é clara e nítida, a chamar-nos a uma vida mais coerente com o que realmente desejamos, que exige sacrifícios e ordena algumas privações.
Ora o ser humano que queira formar-se ou que pretenda formar outros, tem de atender particularmente à construção da vontade.
Sem vontade, não há esforço e sem esforço não há grandeza.
Só o domínio de si próprio é o esforço aplicado ao equilíbrio de todas as faculdades, em todas as emergências da vida.
Por isso será lícito afirmar que é a vontade que devolve o humanismo em risco de se perder pelos prazeres da evolução humana.
Sentimo-nos deslumbrados, perante o clarão do resultado das inteligências penetrantes e vigorosas. Desde o telemóvel até ao pc mais sofisticado, acabamos sempre por usufruir desses “gadgets”, resultados dessas inteligências vigorosas.
A verdade porém é que essas inteligências só serão fecundas quando utilizam a perseverança.
É a vontade que as domina, é o esforço que as condiciona.
Sem isso, serão relâmpagos que brilham um momento, e não sóis que sempre e perenemente iluminam.
O mundo não se governa a golpes de génio, porque esses golpes são necessariamente, intermitentes e raros.
A vida tem de se governar por uma acção contínua e persistente.
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